A Global Editora lançou textos de Cecília Meireles nunca antes publicados em livro. É um conjunto de nove artigos que a autora escreveu, entre 1939 e 1940, para a revista “O Observador Econômico e Financeiro”. O título do livro é “Um país no horizonte de Cecília”, com a organização de Gustavo Henrique Tuna.

Os textos são muito interessantes. Neles, a “repórter Cecília” conversa com pessoas importantes da época sobre variados e relevantes temas. O primeiro – pautado por entrevistas e pontos de vista da autora – chamou minha atenção por razões bem óbvias. E achei que deveria escrever um pouco sobre ele: “Economia do Magistério”, de fevereiro de 1939.

Sempre se ouviu que, além da autoridade inquestionável do professor em sala de aula em tempos idos, o magistério era uma profissão muito respeitada e de ganhos condizentes com esse “status”, tendo perdido seu prestígio e seu poder aquisitivo com o passar dos anos, principalmente a partir da década de 1960 etc. Bem, é isso que sempre se disse a respeito dos intelectuais do ensino. O artigo de Cecília me mostrou uma outra realidade – e me surpreendeu negativamente.

A autora vai reproduzindo suas conversas com professores de diversos níveis – o fundamental, depois os profissionais do ensino médio e, finalmente, do ensino universitário. E o que a gente vê são críticas, queixas, desencantos e desilusões por parte daqueles que se propuseram a ensinar e a levar adiante essa carreira tão essencial para um país que se quer sério. Isso tudo no começo do século 20!

Cecília já era “Cecília” quando publicou esses artigos e, como diz o organizador no prefácio, “nada mais natural que a poeta-repórter estreasse na revista com um ensaio pormenorizado sobre o cotidiano dos professores, lançando seu olhar não apenas sobre os que atuavam no ensino

primário e secundário, como também averiguando as vicissitudes que atingiam os docentes universitários”.

Tudo começa com um absurdo: um decreto-lei do governo de Getúlio Vargas, em novembro de 1937, determinara que “os professores do sistema oficial de ensino, bem como outros funcionários públicos, estariam impedidos de ocupar mais de um cargo”, isto é, deveriam sobreviver única e exclusivamente com o (já) mísero salário que recebiam nas escolas públicas de então.

É Cecília quem escreve: “A vida do professor não pode ser pautada pela de qualquer outro funcionário do Estado, nem pela vida da maior parte dos outros cidadãos (…) Por ser um homem que deve estar sempre bem informado, mister se faz que a cada instante alargue o campo de seus conhecimentos (…) Não há bom professor que não seja um perpétuo estudante. Ele possui as indiscutíveis necessidades dos demais (alimento, abrigo, repouso, distração), para viver, simplesmente – e requer, para trabalhar, a satisfação de necessidades especiais, como qualquer operário que necessite de instrumentos. Esses instrumentos, que são os seus meios de cultura, encontram-se distribuídos sob as mais variadas formas: no simples convívio social, na informação dos jornais, revistas, cinema, rádio; na contribuição artística – música, teatro, cinema, literatura etc. – nos livros de sua especialidade, nas viagens – fonte direta de conhecimentos dos homens e das coisas – sem falar nos recursos particulares representados pela investigação em laboratórios e outros centros de pesquisa”.

À medida que o texto avança e as entrevistas vão se sucedendo, o leitor vai entrando num terreno demasiadamente conhecido de negligência, abandono e pouco caso que parece sempre ter pautado a Educação no Brasil. Que início melhor para se destruir um país do que não valorizar os professores? O primeiro passo será sempre a baixa remuneração, a falta de uma vida digna a fim de se minar a autoestima do professor e fazer com que a própria profissão seja mal vista e evitada.

Lembro que, nos meus tempos de cursinho, pouquíssimos eram os alunos que tinham a intenção de

prestar o vestibular para cursarem as “matérias puras”, como se dizia por lá. Raros eram os que desejavam fazer uma faculdade de Matemática, Biologia, Física, Geografia, Letras, pois a primeira opção no mercado de trabalho seria exatamente a sala de aula. Com o artigo de Cecília, observamos que esse desprestígio vem de longe, de muito longe. Há quase cem anos, essa realidade já se fazia presente no país!

Como dizia Nelson Rodrigues, “subdesenvolvimento não se improvisa: é obra de séculos”.

Em outra passagem do texto, Cecília Meireles tece estas considerações: “Evidentemente que [para o professor] poder manter-se em estudo constante, em contínua atenção criadora, é indispensável que lhe estejam asseguradas todas as necessidades fundamentais da vida (…) se lhe faltarem recursos para seus imperativos de cultura, torna-se inabilitado para a função com que se comprometeu. Pode viver como homem – como professor, não”.

O texto prossegue com as entrevistas assim intituladas: “O professor primário”, “Fala um professor administrador”, “Um professor de ensino secundário”, “Um professor quase satisfeito”, “Outro quase contente”, “Seu colega de ensino secundário” e “Um professor universitário”. O “quase satisfeito” diz que não acumulava cargos – é um professor universitário beneficiado porque a proibição acabou elevando os vencimentos do professorado da Universidade do Distrito Federal (na época, o Rio de Janeiro). É uma exceção, vê-se logo. Na maioria, são profissionais que não têm como pagar o aluguel da casa, a conta de luz, o combustível do carro, três refeições diárias, a conta do açougue, a conta do mercado e muito menos da livraria.

O artigo é muito bom e, infelizmente, muito atual. Os outros textos são do mesmo calibre. O livro vale a leitura, seja pela maravilhosa escritora, seja pelos temas abordados. Termino esta crônica novamente citando Cecília, cujas palavras parecem ter sido escritas nos nossos dias:

“O professor (salvo em casos particularíssimos e não representativos) é um homem que se alimenta mal, que não

dorme o suficiente, que nem sempre está em condições de aparecer diante de seus semelhantes, tanto por falta de tempo como por falta de meios; que não pode ler, nem desenvolver de qualquer outro modo a sua cultura, e que, afinal, nem mesmo tem o direito de adoecer, por força de tantos contratempos, sob pena de perder a remuneração e o tempo de serviço. Aliás, só para morrer é que lhe é facultado ficar doente. Porque, pensando bem, que dinheiro tem o professor para se tratar?”.