Mais de uma vez, tive a oportunidade de escrever sobre a língua e seu dinamismo, sobre como ela vai sofrendo modificações ao longo dos tempos e como seus falantes vão procurando meios “mais fáceis” e “com menos esforços” para comunicarem aquilo que desejam.

Todo estudante de Letras conhece, por exemplo, o processo por que passou a expressão “Vossa Mercê”: de “vossemecê” para “vosmecê”, depois “vosse” e, finalmente, “você”. Hoje, temos o informal “cê”. (Como não pensar no verbo “estar” e suas contrações utilizadas no nosso dia a dia: “Tá”, “Tô”, “Tamos”, “Tava”, “Tive”, etc.?)

Daí, ser muito comum uma pergunta como “Cê tá bem, meu amigo?” e outras tantas que utilizamos informalmente. Enquanto estamos na fala e na conversação informal, nenhum problema. Tudo fica um pouco mais complicado quando as pessoas fazem confusão e transferem essa informalidade para a escrita e, pior ainda, para textos cuja seriedade não pode ser esquecida ou desprezada.

Vamos dar nomes aos bois! Amigos meus que lidam com textos escritos em seu quotidiano – são jornalistas, escritores e professores – têm se deparado com algumas construções próprias da linguagem informal, mas inadequadas para um relatório, um texto de jornal ou mesmo uma redação para o vestibular.

A proliferação de “magina”, quando se queria dizer “imagina” tem assustado muita gente. Tudo bem: nós falamos “magina” no dia a dia, sobretudo quando fazemos um favor a alguém e queremos dizer para a pessoa que aquilo não foi nada, fizemos com prazer etc. Mas utilizar o tal do “magina” em um texto escrito dá a esse texto um caráter informal indesejado e, mais do que isso, mostra que o autor não tem domínio da norma padrão da língua.

Outro exemplo? Tenho visto muita gente respondendo a e-mails e whatsapps com “tendi”. Esse “tendi” vem a ser a corruptela de “entendi”! Muitas pessoas acham que “tendi”, com sentido de “compreendi”, é a forma correta – simplesmente porque é o que se ouve com muita, muita frequência a toda hora.

Cito mais um exemplo: um vizinho meu de prédio terminou uma mensagem de whatspp com um “brigado”! Logicamente, era um “obrigado”, um agradecimento por alguma coisa que eu havia feito por ele. Claro que, para evitar o constrangimento, eu não o corrigi, mas a coisa foi se repetindo por parte de outras pessoas. Percebi que muita gente estava (está) utilizando essa forma. Chegamos ao “brigado” na escrita – termo que, para qualquer conhecedor da língua, vem a ser o particípio do verbo “brigar”. “Os jogadores haviam brigado (discutido) com o juiz por causa do gol anulado”. A diferença é grande!

Os exemplos são muitos. Escrevo de cabeça, sem procurar mais ocorrências como essas nas redes sociais – fonte inesgotável de “novidades” linguísticas. De novo, digo que o motivo dessas confusões vem a ser a falta de leitura, porque “quem não lê não escreve (bem)”. Lembremos de Monteiro Lobato: “Quem não lê mal ouve, mal fala, mal vê”.

E, antes que me julguem preconceituoso, elitista e que tais, sempre gosto de afirmar que não me importo quando meu aluno fala “tipo assim”, “os livro”, “eu tava dormindo”, “magina, professor”, “brigado, meu amigo” etc. Não me importo mesmo, mas faço questão de que ele também saiba se comunicar por meio da língua padrão!

Como diziam meus saudosos professores na faculdade, temos de ser “poliglotas dentro do próprio idioma”. Isso, sim, é bacana! A pessoa consegue se adaptar às circunstâncias e aos interlocutores – desde uma sala de aula, passando por um auditório ou uma empresa, até chegar a um bar ou a um estádio de futebol.

Não existe elegância maior!