Há um bonito videoclipe, de 1989, filmado no metrô de Nova York, no qual Rod Stewart canta a também bonita música de Tom Waits, “Downtown Train”. Durante os quase cinco minutos, as imagens vão se alternando – ora vemos o cantor de voz rouca com sua banda, ora vemos o desenrolar de uma paquera.

Acompanhamos a rotina de uma moça do subúrbio que pega o metrô todos os dias para trabalhar. Ela é bonita, loira, meio tímida, cabelos longos, muito charmosa. Vê-se logo que ela trabalha no centro da cidade (“downtown”, em inglês). A certa altura, um rapaz, também bonito, entra no mesmo vagão que ela e começa a observá-la, obviamente dando todos os sinais de que a achou interessante. Ele sorri, ela corresponde. A breve narrativa avança e, no fim (bonito fim), ele está esperando por ela etc. Como eu já disse, o clipe é bonito, a letra é bonita; Rod veste um sobretudo preto e está muito elegante, como geralmente se apresenta.

Agora, vem a notícia de que ficar olhando alguém no metrô de Londres pode ser considerado crime! Está lá no portal G1: “A polêmica campanha contra ‘encaradas’ no metrô de Londres (e por que isso é considerado assédio sexual) – Uma campanha no metrô de Londres expõe as pessoas que olham fixamente para outras, como um assédio sexual. A polícia local busca erradicar esse tipo de comportamento em toda a rede de transporte”.

Fiquei um tanto preocupado com a notícia, principalmente porque não vai demorar muito pra coisa chegar até aqui. A matéria dá conta de que a medida é polêmica, está dividindo opiniões, claro, mas que deve ter vindo pra ficar. A campanha visa a proteger, sobretudo, as mulheres, mas não somente elas – há homens que também se sentem incomodados quando são observados (paquerados) com insistência.

Verdade seja dita, realmente é um tanto constrangedor quando alguém nos observa insistentemente, há um desconforto nisso – desde que a pessoa que nos olha não nos seja interessante.

Tenho andado de metrô muito menos do que há uns cinco ou seis anos – o trabalho em casa tem me poupado disso e não reclamo de poder ficar no meu escritório enquanto escrevo e dou minhas aulas. Houve, contudo, uma mudança muito, muito grande no comportamento das pessoas, pelo menos nas grandes cidades: ninguém mais paquera ninguém, pois as pessoas só têm olhos para seus celulares! Acho isso tão estranho! Muitas vezes, elas estão nos aplicativos de namoros ou buscando simplesmente uma transa rápida, com pessoas um tanto longe delas, mas não conseguem ver quem está ao seu lado, dando bola, como se falava antigamente. Tenho a impressão de que, se alguém entrar pelado no metrô, nem será notado! Ninguém vai ver.

Claro que eu não falo aqui de assédio, que é sempre um comportamento horrível e reprovável. Não me refiro ao olhar obsceno, ao gesto que constrange e intimida. Falo da paquera gostosa, aquela que a gente vê no clipe do Rod, ou nos filmes românticos da Velha Hollywood, por exemplo. O que seria dos filmes se Doris Day processasse Rock Hudson cada vez que fosse paquerada?

Talvez eu esteja pensando demasiadamente com a cabeça de uma pessoa mais velha – sou mais velho do que essa moçada cujos olhos parecem pregados no celular –, mas ainda me espanto com o alcance do tal “politicamente correto” e as novas regras de convivência nas grandes cidades.

A referida matéria do G1 também cita um artigo da revista britânica The Spectator, segundo a qual “a criminalização de se olhar para outras pessoas em um espaço público é preocupante”. Eu também penso assim. Logo, logo, não manter os olhos no celular ou fingir que se está dormindo é que serão comportamentos anormais. Vivemos um tempo de radicalismos.

Diante disso, fico pensando em quantos filmes, letras de músicas, quadros etc., podem ser considerados “um estímulo ao assédio”. Há uma bonita canção dos anos 60, de Jerry Capehart, chamada “Turn around look at me” (“Vire-se, olhe pra mim”), que diz assim, logos nos primeiros versos: “Há alguém caminhando atrás de você / vire-se, olhe pra mim. / Há alguém observando seus passos / vire-se, olhe pra mim (…)”. E, mais adiante, “Entenda que há alguém que ficará ao seu lado / vire-se, olhe pra mim”. Certa vez, li um comentário no Youtube no qual se dizia que a letra era uma propaganda do assédio e era assustadora. Meu Deus! O comentário dessa pessoa é que é assustador!

Acho que chegamos mesmo ao fim da paquera. Quem, no futuro próximo, terá coragem de olhar para alguém, correndo o risco de ser preso por um comportamento vergonhoso e imoral?

Abaixo, deixo os links para as duas músicas que citei no texto. Quem se interessar, pode conferir tanto o clipe do Rod,  quanto a letra da outra canção com The Vogues. Eles seriam censurados hoje?

 

https://www.youtube.com/watch?v=7vPrtOFKPWY

 

https://www.youtube.com/watch?v=Ml_fl7bhLss