Entre setembro de 1964 e maio de 1966, a rede americana CBS produziu a deliciosa série “Os Monstros”, que satirizava a família média americana e, com charme e ironia, brincava com os filmes de terror. Era difícil não gostar de Herman e sua família, que viviam num casarão assustador. Eles gostavam de coisas estranhas para as pessoas ditas normais – é só lembrar que o vovô, por exemplo, vivia se transformando num morcego. Entre as esquisitices, estava o gosto da turma por dias chuvosos. Herman, o Frankenstein, olhava pela janela e, se estivesse chovendo, abria um sorriso e dizia: “Que dia lindo! Vou aproveitar para um piquenique!”.

Escrevo isso porque desde sempre tenho ouvido a associação que as pessoas fazem entre dias ensolarados e a alegria, enquanto os dias nublados e/ou com chuva seriam sinônimos de tristeza, melancolia, depressão etc. Mas eu conheço pessoas, entre as quais me incluo, que gostam da chuva, adoram caminhar sob ela, sentem um prazer enorme com os dias nublados e absolutamente não se sentem tristes quando o sol não aparece. São pessoas que saem da cama com mais prazer, com mais ânimo, quando ouvem os pingos batendo na janela de seus quartos, pois sabem que a chuva os espera.

É só a chuva dar uma sumida, que a gente se lembra bem rapidamente da importância que ela tem: as contas de luz sobem, muitos bairros têm que fazer rodízios de água, nossa higiene fica comprometida, o ar fica pesado e as doenças respiratórias começam a maltratar as pessoas, entre muitos outros problemas.

Não falo aqui de coisas exageradas: no verão brasileiro, todos conhecem o excesso de chuva que cai e todos os transtornos e tragédias das águas furiosas que elevam os níveis dos rios e provocam enchentes terríveis, além dos deslizamentos muitas vezes fatais. E todos sabem das notícias tristes de pessoas que perdem o pouco que conseguiram com muito esforço e luta. Não! Não falo de exageros pluviais, não há beleza nisso, assim como também não há beleza alguma na estiagem, na seca que castiga tantas regiões do país, sob o sol que não dá tréguas.

Falo da chuva moderada, pode até ser um pouco forte, quente, aquela água caindo que nos pega de surpresa e nos lava a alma. Alguns leitores poderão, aqui, torcer o nariz: também tenho amigos que não suportam um dia mais cinzento ou uma chuva mais persistente.

Mas a chuva está ligada a momentos tão bacanas de minha vida! Noutro dia, um dos meus irmãos e eu estávamos recordando o quanto gostávamos de jogar bola, debaixo de chuva, no campo da antiga Editora Abril, ali perto da Marginal Tietê, na Freguesia do Ó. Sabíamos, todos os meninos, que, ao chegarmos em casa, nossas mães já nos esperariam com o chinelo na mão e com ordens expressas de irmos diretamente para o banheiro a fim de não molharmos a casa inteira. E o prazer daquelas duas ou três horas valiam as broncas que viriam. Que delícia a chuva caindo, os meninos correndo, a bola lisa, a grama escorregadia, os gols que a gente fazia!

Mais tarde, já na nossa adolescência, andar de bicicleta na chuva, na garoa que nos convidava a ficar em casa – convite que a gente desobedecia e pedalava sobre o asfalto molhado. Não eram todos os amigos que topavam andar sob a chuva – a turma ficava reduzida em dias assim, mas eu entendo que era uma questão de gosto: eu mesmo nunca fui companhia para o solzão que nos tirava o ânimo, que deixava a molecada sentada, esperando o calor diminuir para poder começar o jogo. Nunca fui fã do calorão tropical.

Fiquei adulto, e minha adoração pela chuva só aumentou. Gosto quando sou pego “de surpresa” nas minhas caminhadas matinais, e volto pra casa encharcado, roupa colada no corpo, a sensação de limpeza, aquela água pura que cai do céu e lava a gente. As árvores desta São Paulo tão poluída, tão cheia de pó e fumaça de carros, ficam verdinhas, felizes sob a chuva que lhes dá nova vida. E a gente se renova também.

De novo, faço a ressalva de que não curto os exageros. “Tudo o que é demais faz mal”, dizia a minha avó. E é verdade. Não sou fã de tempestades, raios, trovões, água violenta que destrói casas, arrasta carros e pessoas, afunda embarcações, derruba árvores, deixa um mar de lama atrás de si. Gosto da chuva calma, tranquila, que me faz ir à janela só pra ver a cidade molhada lá embaixo. E que me faz sentir vontade de descer só pra me molhar um pouco. Sinto-me bem nos dias frios e chuvosos. Acho que sou da Família Monstro.

É claro que sei da importância do Sol para este planeta… mas não posso negar minha paixão pela chuva, que é essencial para a vida também.

Há não muitos dias, enquanto caminhava, comecei a listar mentalmente músicas que faziam alusão à chuva. Vieram-me muitas à lembrança. A lista é realmente longa. A que mais me trouxe recordações foi “Súplica Cearense”, canção dos compositores Gordurinha (Waldeck Artur de Macedo) e Nelinho. Meu avô costumava cantá-la nas reuniões de família, principalmente porque meu pai era nordestino, embora não fosse do Ceará – ele era piauiense, estado também bastante castigado pela estiagem, onde também se rezava e se reza para que a seca não castigue demais as pessoas.

A interpretação mais marcante é a do eterno Luiz Gonzaga: triste, porém bonita, forte e intensa, que nos dá a exata descrição dos exageros vividos por aquele povo tão sofrido do sertão. Se a estiagem castiga e maltrata, a chuva em excesso também é ruim; se a seca é terrível para o plantio, um volume exagerado de água também põe tudo a perder.

O eu lírico confessa ter-se postado de joelhos – a conhecida religiosidade do povo nordestino – e pergunta ao Criador se Ele está zangado: talvez as preces por chuva tenham aborrecido a Deus que, por isso, “arretirou” o sol e fez a chuva “cair sem parar”. Os versos vão se estruturando sobre os pares antitéticos “seca x água”, “estiagem x chuva”, “sol inclemente x chuva que cai sem parar”, resultando nas inundações e, consequentemente, no arrependimento daquele que pediu a Deus para “o sol se esconder um tiquinho”, mas que talvez seja “um pobre que não sabe fazer oração”.

São versos sofridos, simples e profundos – como o sertanejo! A música é bonita. No meu caso, ela é marcante porque me remete a dias e pessoas que, infelizmente, não voltarão.

                        SÚPLICA CEARENSE 

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado,
Que de joelhos rezou um bocado,
Pedindo pra chuva cair sem parar.

Oh! Deus, será que o senhor se zangou?
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há.

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedi pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão.

Oh! Deus, se eu não rezei direito, o Senhor me perdoe.
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração.

Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água
E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
Pro sol inclemente se arretirar.

Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno
Desculpe eu pedir para acabar com o inferno
Que sempre queimou o meu Ceará.

https://www.youtube.com/watch?v=suO77fmI5Zw