Minhas caminhadas são um exercício para o corpo, para a mente e para meus olhos.

Ando pelas ruas de um bairro nobre, perto de onde moro, e vejo cenas e tipos bem interessantes que me põem a pensar enquanto tento queimar as calorias dos chocolates todos que não consigo parar de comer.

Há muitos anos que comecei a fazer  caminhadas, e posso afirmar que foi uma das melhores decisões da minha vida. A gente vai tomando uma dependência gostosa de sair de manhã, tomar um ar fresco (apesar da poluição desta cidade), tomar um sol (se for o caso) ou enfrentar um vento frio e uma garoa (como acontece em alguns dias do ano).

Gosto de caminhar pelas ruas do tal bairro nobre: ele é plano, agradável, bem arborizado, embora alguns de seus semáforos, em alguns cruzamentos, sejam muito chatos e me façam esperar mais do que minha paciência atura. E vou caminhando, encontrando alguns personagens que chamam minha atenção.

São alguns porteiros de prédios e de escolas, homens cujos nomes não sei, mas que são suficientemente simpáticos para me cumprimentarem com um aceno de mão ou mesmo de viva voz. Um “bom dia” alegre, que deixa o dia da gente um pouco menos pesado e mais colorido. Zeladores, faxineiros, pintores e encanadores que cuidam dos condomínios da região. Gente simples, gente acostumada ao sorriso.

São seguranças de escolas particulares e tradicionais, vestidos de terno e gravata (normalmente escuros), com sapatos bem engraxados, cabelos bem aparados, alguns de barba, outros sem. A maioria deles simpática, um sorriso atrás da cara carrancuda que fazem como se fosse um dever de ofício.

A escola de educação infantil, colada a um tradicional parque. As crianças de quatro ou cinco anos brincando, correndo, chamando pela professora. A inocência delas me faz bem, e, por momentos, esqueço algumas coisas desagradáveis deste mundo.

Enquanto caminho, vou encontrando alguns rostos “conhecidos”, figuras que estão por lá sempre nos mesmos dias que eu, mas com as quais nunca troquei uma palavra. Há um casal bonito, devem ser casados – noutro dia, estavam tensos, discutindo sobre alguma coisa: pude notar quando passei por eles; uma senhora que sempre caminha com seus dois cachorros pequenos – Beagles – muito bonitinhos, mas que devem lhe dar um trabalho danado!

Um senhor de idade bem avançada que caminha com o auxílio de um enfermeiro ou fisioterapeuta, não sei. Seus passos são lentos, estão sempre conversando e rindo. Já deve ter nascido uma amizade entre eles.

Um simpático rapaz que trabalha levando cães para passear – um “dog walker” – e que, mesmo não me conhecendo, sempre troca palavras gentis comigo. Eu já sei que ele adora o sol e dias quentes; ela já sabe que fujo disso, que gosto de dias mais frios. Preciso, um dia, perguntar o seu nome. Pelo menos, isso.

O rapaz da banca de bonitas frutas; o senhor de uma outra que vende água de coco, sempre cercado por seus clientes mais fiéis. O parque com sua área reservada para cães sempre lotada, seus donos que mexem nos celulares sem parar enquanto seus animais de estimação correm desenfreados, livres dos apartamentos onde vivem. A cachorrada se esbalda.

O famoso cronista esportivo que mora no bairro e que eu encontro, às vezes, caminhando em sentido oposto. Nós nos cumprimentamos de forma superficial, mas gentilmente. Até o dia em que, sem querer, quando estou voltando, acabo por ficar ao lado dele e temos um breve diálogo. Conversamos sobre amenidades. Ele anda porque seu cardiologista mandou – “Adoro vinho” – e eu lhe digo que adoro doces. Quando ele descobre que não moro no bairro nobre, muda de tom e diz para que eu siga no meu ritmo. Para bom entendedor, meia palavra basta. Despeço-me dele e vou rindo de sua hipocrisia, ele que se diz um homem “de esquerda”. Outras vezes nos encontramos, outras vezes nos cumprimentamos superficialmente. E vida que segue.

Um café de uma marca francesa muito famosa, cujos produtos são ótimos, mas de um preço que nem todo o mundo pode pagar. A ironia de uma de suas placas que diz: “Encontre a felicidade nas coisas simples da vida”. Um café da manhã por mais de R$100,00 é uma coisa simples da vida? No Brasil? Só rindo.

Babás que empurram seus carrinhos, levando bebês que dormem ou agarram seus ursinhos de pelúcia, enquanto elas leem mensagens nos celulares; carros importados que saem dos edifícios enormes com suas varandas também enormes. Prédios vigiados por seguranças durante 24 horas me fazem crer que são habitados por gente muito importante, que eu talvez jamais venha a conhecer.

E a manhã vai passando. Quando termino minha caminhada, sinto-me outro. Se eu estava estressado, volto pra casa relaxado; se eu estava triste, volto mais animado; se eu estava irritado com alguém ou alguma coisa, volto ponderando e enxergando que ninguém nem nada valem meu aborrecimento.

Chego à conclusão de que caminhar é bom pra alma também!