Quando pensamos em um bom texto dissertativo – seja na escrita ou na fala –, imediatamente pensamos em um texto com os chamados cinco “Cs”: ele deve ser coerente (deve seguir uma linha de raciocínio), coeso (suas partes devem estar interligadas de modo lógico), claro (de fácil entendimento por parte do público-alvo), conciso (deve ser objetivo) e convincente (a ponto de levar o leitor ou o ouvinte à reflexão).

Pesadelo de muitos vestibulandos e mesmo de muitos profissionais formados, o texto dissertativo requer um domínio da norma padrão, isto é, da chamada Gramática Normativa – acentuação, concordância, conjugação de verbos, ortografia, pontuação etc. Mas nada disso será útil se as ideias não forem bem expostas, se não forem estruturadas de acordo com os “Cs” que expus acima.

Na minha longa carreira de professor de Redação para vestibulandos, encontrei todo tipo de alunos – desde os que escreviam com muita dificuldade até os que, eu já sabia, tirariam uma nota muito boa nos exames, passando por aqueles cujas redações eram razoáveis, medianas. Claro que os (raros) alunos cujas redações eram excelentes tinham o hábito de ler, o que lhes facilitava a produção de textos escritos. E era sempre um prazer ler o que escreviam, como escreviam, o modo como expunham suas teses e como procuravam defendê-las.

Quando se estudam conceitos sobre “a arte de escrever”, encontram-se alguns autores que fazem uma distinção entre “convencer” e “persuadir”. Talvez seja só um jogo de palavras, mas acho interessante a diferenciação entre esses dois termos que nós, normalmente, consideramos sinônimos. Vamos lá!

Segundo o professor António Abreu (Linguística/USP), por exemplo, convencer é “saber gerenciar informação, é falar à razão do outro, demonstrando, provando”. Etimologicamente, significa “vencer junto com o outro” (com + vencer) e não “contra o outro”.

Persuadir é “saber gerenciar relação, é falar à emoção do outro”. A origem dessa palavra está ligada à preposição per, “por meio de” e a “Suada”, deusa romana da persuasão. Significa “fazer algo por meio do auxílio divino”. Mas em que convencer se diferencia de persuadir?

Convencer, segundo o professor, é construir algo no campo das ideias – quando convencemos alguém, esse alguém passa a pensar como nós. Persuadir é construir no terreno das emoções, é sensibilizar o outro para agir – quando persuadimos alguém, esse alguém realiza algo que desejamos que ele realize.

Muitas vezes, conseguimos convencer as pessoas, mas não conseguimos persuadi-las – ou vice-versa. Vamos dar um exemplo do primeiro caso: podemos, facilmente, convencer um fumante de que seu hábito é extremamente prejudicial à sua saúde, como já está mais do que provado pela medicina. Fotos, gráficos, estatísticas, relatos e depoimentos comprovam os muitos malefícios do tabagismo. Agora, persuadi-lo a parar de fumar é uma outra história. Se conscientizá-lo é uma tarefa fácil, fazê-lo largar o vício é muito mais difícil.

No segundo caso, em que a persuasão é mais fácil do que o convencimento, podemos lembrar da responsabilidade dos pais sobre os filhos, por exemplo. O adolescente quer ir a um jogo de futebol no qual certamente haverá confusão e briga. Os pais podem persuadir o jovem a ficar em casa, aconselhando-o a manter-se longe do perigo. O rapaz poderá ver o jogo pela TV, contrariado, mas sem se convencer de que não deveria ir.

Penso que a hostilidade que se vê, hoje, nas redes sociais, vem da falta de bons argumentos por parte de quem expõe suas opiniões, além de não se levar em consideração a opinião do outro. Quando me faltam elementos para defender meu ponto de vista, sinto-me no direito de ofender, humilhar, ridicularizar e tentar desestruturar a tese daquele que pensa diferentemente de mim. Assim, a batalha começa e amizades terminam! E não sou capaz de convencer, nem de persuadir.

Perdemos a civilidade – queremos convencer as pessoas à força (no caso de um debate sobre partidos políticos) e desejamos persuadi-las a todo custo (no caso de direcionar seus votos numa eleição, por exemplo). O que vem acontecendo no Brasil é prova disso.

Como já foi dito, a internet deu voz a todo o mundo que saiba juntar as palavras – mas argumentar é um processo mais complexo. Lembrei agora de uma fábula de Esopo, simples na sua superfície, mas muito interessante em seu conteúdo. O autor grego nos fala exatamente de argumentação, defesa de ponto de vista, persuasão, abuso de autoridade e violência.  Vejam como se trata de um texto muito atual!

                              O Lobo e o Cordeiro

Um cordeiro estava bebendo água num riacho. O terreno era inclinado e por isso havia uma correnteza forte. Quando ele levantou a cabeça, avistou um lobo, também bebendo da água.

– Como é que você tem a coragem de sujar a água que eu bebo? – perguntou o lobo, que estava alguns dias sem comer e procurava algum animal apetitoso para matar a fome.

– Senhor – respondeu o cordeiro -, não precisa ficar com raiva porque eu não estou sujando nada. Bebo aqui, uns vinte passos mais abaixo, é impossível acontecer o que o senhor está falando.

        – Você agita a água – continuou o lobo ameaçador –, e sei que você andou falando mal de mim no ano passado.

– Não pode – respondeu o cordeiro. No ano passado, eu ainda não tinha nascido.

O lobo pensou um pouco e disse:

– Se não foi você, foi seu irmão, o que dá no mesmo.

– Eu não tenho irmão – disse o cordeiro -, sou filho único.

– Ah, então foi alguém que você conhece, algum outro cordeiro, um pastor ou um dos cães que cuidam do rebanho, e é preciso que eu me vingue!

        Ao pequeno cordeiro nada restou, senão o pavor que aquelas palavras lhe despertaram, uma vez que o lobo estava decidido a atacar.

        Então, ali, perto do riacho, no fundo da floresta, o lobo saltou sobre o cordeiro, agarrou-o com os dentes e o devorou num lugar bem sossegado.

 

MORAL DA HISTÓRIA: QUANDO LHES FALTAM ARGUMENTOS, MUITOS APELAM PARA A FORÇA.

                                        Esopo – 620, a.C.

 

Bibliografia:

ABREU, Antônio Suarez. A Arte de Argumentar –                    Gerenciando Razão e Emoção, São Paulo, Ateliê Editorial, 2002.