O Natal sempre foi tema das mais diversas manifestações artísticas. Na música, no teatro, no cinema, na literatura, etc., são muitas as obras que abordam o nascimento de Cristo e toda a tradição bíblica com seus personagens – a Sagrada Família, os Reis Magos, a Estrela de Belém, a manjedoura… tudo isso formando os bonitos presépios de minha infância.

Mas eu dizia que os mais variados artistas compuseram suas obras levando em conta a tradição natalina. De cara, não posso deixar de mencionar os inumeráveis filmes hollywoodianos cujo enredo todo o mundo já sabe, mas que ainda atraem milhões de pessoas. Na TV a cabo que eu (ainda) assino, há um determinado canal que, desde o dia primeiro de dezembro, só passa comédia de Natal – algumas bem bobinhas e manjadas, outras até inteligentes, mas confesso que já perdi a vontade de ver esses filmes há muito tempo. Enjoo total – do enredo previsível e do elenco, quase sempre chocho, sem graça, sem vida. Muita gente gosta. Prefiro rever “Amor à primeira vista” (1984), com Meryl Streep e Robert de Niro, por exemplo; ou “Uma noite especial” (1999) com Julie Andrews e James Garner. Esses, pra ficar somente em dois bonitos filmes sobre o tema. Claro que existem centenas de outros dos quais estou esquecendo aqui. O leitor deve ter a sua lista.

No campo da música, uma tradição americana que nós, aqui no Brasil, não temos: os discos de Natal que cantores e cantoras lançam todo ano – uma lista de vai de Frank Sinatra a Michael Bublé (canadense), passando por Rod Stewart (britânico), Barbra Streisand, Nat King Cole, Carpenters, Elvis Presley, Dean Martin, Ray Conniff, Tony Bennett, Bing Crosby, Johnny Mathis e centenas de outros. Sejamos sinceros: por aqui achamos a coisa meio brega (ou totalmente brega, se desejarem), cafona mesmo, tanto que conheço gente que gostaria de dar o disco da Simone (“25 de Dezembro”) de presente para os inimigos. Que maldade!

Na literatura nacional e estrangeira, também temos muitas, muitas obras que exploram a época do Natal. De imediato, lembro da bonita crônica de Rubem Braga “O sino de ouro” (1951), um texto bonito, sensível, que põe a gente pra pensar a respeito de tanta coisa, como nosso grande cronista costumava fazer. De Lygia Fagundes Telles, me vem à mente “Natal na barca” (1970), também muito bonito. E como esquecer de “Missa do Galo”, do mestre Machado de Assis? Um conto enigmático, sobre uma suposta intenção de adultério, na véspera de Natal, por parte de uma mulher triste e negligenciada pelo marido… como sempre, em Machado, nada está às claras, tudo é sugerido. Belíssimo texto! Vale a pena ser lido.

Cecília Meireles escreveu um Auto de Natal, “O menino atrasado”, uma publicação póstuma (1966), pela comemoração do 25º Aniversário de fundação de Livros de Portugal no Brasil. O livro é raro e, quando se consegue encontrá-lo, o preço é salgado. O texto, contudo, é bonito. É Cecília. E isso diz tudo.

Por falar em Cecília Meireles, outros tantos poetas compuseram versos sobre o Natal. Vou à minha estante e alcanço “Manuel Bandeira – poesia completa e prosa seleta”. Dá vontade de ficar a tarde inteira lendo o escritor pernambucano… encontro um poema que se chama “Canto de Natal”, de 1948. Bonito também!

Tocante e triste é o capítulo “Festa”, de “Vidas Secas”, livro de 1938. Nele, o narrador de Graciliano Ramos nos remete às comemorações simples do sertão nordestino com a gente simples do lugar – humilde, religiosa e devota. Capítulo em que a família de Fabiano, debaixo de um calor intenso, sai da fazenda e vai à cidade por causa exatamente do Natal. Ficamos sabendo que, em decorrência do pouco pano comprado, “as roupas tinham saído curtas, estreitas e cheias de emendas”.  É a passagem do livro na qual o narrador nos informa: “Fabiano reconhecia-se inferior” e, “por isso desconfiava que os outros mangavam dele”. Tudo colabora para que se tenha um retrato da miséria física e moral daquelas personagens. Impossível não se emocionar!

Tenho aqui um livro intitulado “Os melhores contos de Natal”, do extinto Círculo do Livro. Ele traz textos de Charles Dickens, Guy de Maupassant, Jack London e Nathaniel Hawthorne, para citar alguns poucos. São muitas histórias bonitas.

Gosto também de ver os episódios de Natal das séries antigas de TV. Eles, os episódios, me remetem à infância, e, por mais que a gente decore cada fala de cada personagem ano após ano, é sempre uma delícia abrir um chocolate ou um panetone e deixar o filme rolar. Natal é, também, uma época de lembranças de tanta coisa que se foi!

Antigamente, da minha janela, eu via os prédios enfeitados, as luzes das árvores de Natal atravessarem as vidraças e iluminarem os apartamentos vizinhos. Antigamente, as lojas concorriam para ver quem mostrava a vitrine mais bonita, a mais bem decorada, a mais iluminada. Há não muito tempo, praças ostentavam árvores coloridas e as pessoas passavam de carro ou a pé para verem, com seus filhos e entes queridos, os enfeites e as luzes que deixavam a cidade mais bonita.

Não vejo mais essa alegria em São Paulo – já faz tempo que a cidade está muito feia, sem brilho, sem alegria, repleta de pichações e rabiscos horríveis nas paredes e monumentos. Uma pena!

Termino este texto citando uma bonita e antiga poesia portuguesa que conheço desde menino, de um antigo livro que ganhei do meu avô. (Em tempo: o termo “registo” é uma forma arcaica de “registro”.) Aí vai:

ROSAS VERMELHAS, ROSAS BRANCAS

Segundo uma lenda antiga,
Maria com S. José
Fugindo à gente inimiga,
Transpôs caminhos a pé.

E, à proporção que Maria
Deixava o rastro no chão,
Todo o caminho floria
De rosas em profusão.

Pelos trilhos e barrancas
Das estradas, viu-se em breve
O estendal das rosas brancas
Tudo enfeitando de neve.

De um branco suave e doce
As rosas. Nenhuma havia
Pela terra, que não fosse
Da cor dos pés de Maria.

Depois de tempos volvidos,
Ao peso da imensa cruz,
Pelos caminhos floridos
Um homem passa – Jesus.

E sobre o estendal de flores,
De seu corpo o sangue vai
Caindo, e Ele, entre mil dores,
Não geme, não solta um ai.

Passou, e pelas barrancas,
Sob as asas das abelhas,
Dos tufos das rosas brancas,
Brotaram rosas vermelhas.

Só duas cores havia
De rosas, que aqui registo:
A cor dos pés de Maria
E a cor das chagas de Cristo.

Belmiro Braga, Lisboa, 1943.

Desejo a você um Natal de muita paz! Que assim seja!