“O homem moderno perdeu o prazer do silêncio” – Mário da Silva Brito, jornalista e poeta brasileiro.

 

Recentemente, vi um episódio muito inteligente da sempre intrigante série “Além da Imaginação” (“The Twilight Zone”, EUA, 1959 – 1963), idealizada por Rod Serling, que durou cinco temporadas e, de acordo com alguns críticos, revolucionou a TV americana.

Bem, o episódio ao qual me refiro faz parte da segunda temporada. Nele, o espectador é introduzido a um clube composto única e exclusivamente por homens, todos aparentemente muito ricos, que jogam cartas, leem, tomam seu whisky, conversam etc. No centro de um grupo mais ou menos numeroso de sócios, está um rapaz que conta um caso. A alguns metros, na mesma sala, há um senhor de meia idade, sentado numa sofisticada poltrona, que presta atenção ao mais jovem – mas revela-se incomodado com a prolixidade com o que o rapaz se expressa.

A irritação do mais velho vai se intensificando. Nesse momento, aproxima-se dele o seu advogado (interpretado pelo sempre ótimo ator Jonathan Harris, o Dr. Smith de “Perdidos no Espaço”). Trocam algumas palavras e o tal magnata levanta-se e dirige-se ao eloquente rapaz que não cessa de falar aos seus ouvintes. Tomado de mau humor, o homem vai até o outro e o interrompe. Expressa todo o seu desprezo pelo falatório do moço: diz-lhe ser insuportável conviver no mesmo recinto com alguém que fala tanto e não respeita o silêncio. Diz ainda que, se poder tivesse, expulsaria o outro do clube por causa da inconveniência de seu falatório e do volume de sua voz.

O clima fica bastante tenso. O moço cala-se e ouve o que o mais velho tem a lhe dizer. Este, tomado de mais fúria, propõe àquele uma aposta: se o tão falante jovem conseguir ficar isolado numa “cela de vidro”, sendo filmado durante um ano e sem pronunciar uma palavra sequer, será recompensado com US$ 500 mil (quantia bastante alta para a época). Para espanto de todos os presentes, o rapaz (cuja esposa é perdulária e o meteu em dívidas) aceita o desafio e, logo em seguida, nós o vemos na tal “cela de vidro”, cercado por câmeras e microfones que não perdem um só de seus movimentos. (Uma profecia do tal “Big Brother” na TV?)

O espectador vai acompanhando a passagem do tempo pela imagem de um calendário na tela. A angústia do desafiado cresce, mas a do desafiante também. O desfecho é bastante surpreendente. (Eu não tenho problema algum quanto a alguém me contar o fim de um filme, de um livro, de uma peça de teatro etc. Se eu tiver vontade, verei o filme ou a peça e lerei o livro tranquilamente. Ultimamente, parece que a gente xinga a mãe de alguém quando fala o tal do “spoiler”. Acho uma bobagem enorme, mas vou respeitar aqueles que não gostam de saber o fim de uma história porque podem querer vê-la.)

Bem, o episódio me pôs a pensar sobre os nossos tempos. Ítalo Calvino disse que “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha pra dizer”, e acho que essa definição também se aplica às outras artes. O episódio em questão é extremamente rico e atual – é um clássico! Assim que terminei de vê-lo, fiquei pensando em como as pessoas “gritam” hoje para serem ouvidas, quanto barulho fazem para serem notadas – sobretudo nas redes sociais – e como a cultura do silêncio está abandonada neste século 21!

O hábito de “ouvir não para refletir”, mas “para replicar”, “para responder”, “para discordar”. Não se cultiva o silêncio que leva à reflexão: dá-se valor à discussão mais baixa, à argumentação que não é argumentação, mas uma imposição de opiniões com o intuito de sufocar o outro e não deixar que o ponto de vista alheio tenha importância. É só notarmos, por exemplo, essa polarização política medonha que está ocorrendo no País.

O silêncio é sinônimo, nos nossos dias, de chatice, monotonia, enfado, aborrecimento, tédio. As pessoas não se calam e, a exemplo do moço da série que irritava tanto o mais velho, são incapazes de fechar a boca. De posse de seus celulares, vão falando de suas vidas privadas em ônibus, metrôs, filas de bancos, restaurantes, teatros, cinemas, praças, ruas… em todos os lugares, sem se importarem com quem possa lhes estar ouvindo a cantilena.

Na belíssima canção “Se eu quiser falar com Deus”, Gilberto Gil canta: “Se eu quiser falar com Deus/Tenho que ficar a sós/Tenho que apagar a luz/Tenho que calar a voz (…)”. Independentemente de religião, fé ou crença, a mensagem é muito bonita: para viajar para dentro de mim mesmo, preciso de paz, de quietude, preciso me desligar deste mundo que gira numa velocidade cada vez mais alta… preciso, em suma, de silêncio. O tão rejeitado silêncio!

Não sou psicólogo, nem psiquiatra, mas tenho pra mim que grande parte das angústias e ansiedades que experimentamos hoje vem do barulho excessivo no nosso dia a dia…ou, em outras palavras, vem da falta de silêncio e quietude que poderiam nos trazer serenidade e paz.

Meu avô, que detestava bagunça, costumava falar: “O silêncio diz muita coisa – basta que prestemos atenção”.