Em ano de eleições, é sempre bom lembrar de um dos personagens mais famosos da literatura e do cinema.

A revista The New Yorker trouxe, há alguns dias, uma matéria de capa sobre o conhecido boneco de madeira eternamente associado à arte da mentira, bem como sobre o escritor italiano que criou suas histórias nos fins do século 19.

A matéria começa contando que Pinóquio é, segundo uma pesquisa, o filme da Disney (produção de 1940) de que as pessoas menos gostam e aquele que mais lhes mete medo. Se pensarmos bem, não se trata de uma história muito agradável, daquelas com as quais a criança vai pra cama com um sono tranquilo. E a explicação para isso está na gênese da personagem e na história do próprio criador, Carlo Collodi.

Pra começo, um pouco de semântica: o nome do garotinho mentiroso vem dos termos italianos “pino” (“pinho”, a madeira da qual ele é feito por Geppetto) e “occhio”, (“olho”, a primeira parte esculpida pelo artesão). Mas quem conhece somente o filme da Disney pode estar um tanto longe da história original. A revista afirma que “poucas vezes se viu um livro tão obscurecido por uma adaptação para o cinema”.

Uma amostra das diferenças? No livro, por exemplo, Pinóquio mata o grilo falante quando este diz que o boneco deveria ir à escola. Também no romance, o crescimento de seu nariz não tem a ver com as mentiras que conta: seu nariz cresce sem mentiras e ele mente sem que o nariz cresça. Ainda segundo a The New Yorker, “os críticos dizem que o trabalho de Collodi não é uma história infantil, mas um retrato da sociedade do século 19 – Pinóquio estaria para a Itália como D. Quixote está para a Espanha: um desses raros personagens nos quais todo um povo pode se ver refletido. Mas não precisamos ser italianos para nos vermos em Pinóquio: ele é o espírito da desobediência no mundo inteiro”.

Carlo Collodi (1826-1890) era o mais velho dos dez filhos de um cozinheiro e de uma costureira que trabalhavam para um marquês florentino chamado Ginori Lisci. O casal não tinha como sustentar tantos filhos, e Carlo foi viver com a família da mãe no vilarejo de Collodi. Assim, de Carlo Lorenzini (seu nome verdadeiro), passou a assinar Carlo Collodi. Os patrões de seus pais se interessaram por ele e até mesmo o colocaram num seminário. Quando ficou claro que ele não dava para o ofício, transferiram-no para uma escola, coisa rara para um menino de sua classe na Itália daquela época.

De acordo com alguns estudiosos, explica-se, assim, o caráter tão ambíguo do boneco: Carlo teve uma educação clássica, mas também conheceu a vida dura “na rua”.

No fim de sua adolescência, foi trabalhar numa respeitável livraria de Florença, onde tomou contato com a chamada “intelligentsia”. Escreveu críticas sobre livros, peças de teatro e música. Foi uma espécie de faz-tudo no jornalismo. O fato de não ter se casado e de não ter tido filhos facilitou sua vida. Diziam que ele não gostava de crianças. Vejam só!

Collodi era um republicano. Em 1848 e em 1859, apoiou o “Risorgimento”, movimento que visava a libertar a Itália dos governantes estrangeiros que mandavam no país. O autor, porém, como a maioria dos radicais, não ficou satisfeito com o resultado do “Risorgimento”: uma monarquia constitucional encabeçada por um rei fraco, Victor Emmanuel II, mais preocupado com os ricos do que com os pobres.

Entre suas atividades, empenhou-se também na produção de um dicionário que pudesse unificar a língua falada no país, no lugar dos dialetos que dificultavam a comunicação entre as pessoas de diferentes regiões da Itália. Diz-se que, quando as reformas aumentaram a tarefa de educar as pessoas dessa nova nação, Collodi começou a escrever para crianças. Em 1880, um editor o persuadiu a escrever para o “Giornale per i Bambini” (Jornal para as Crianças) e então ele começou a escrever “La Storia de um Burattino” (“A história de um boneco”), isto é, Pinóquio.

Vistos mais de perto, os personagens do livro são caricaturas e fazem severas críticas às autoridades da época. São idiotas ou corruptos, ou ambas as coisas. Segundo a revista, Collodi era subversivo, sardônico e iconoclasta – não surpreende que ele tenha ambientado sua história num cenário hostil. Tudo – personagens, enredo e espaço – fazia parte da ironia com que o autor enxergava a sociedade de seu tempo.

Os registros da época dão conta de que Pinóquio foi um sucesso imediato, mas Collodi logo se cansou de escrever suas aventuras. Pôs fim à história, mas foi compelido a retomar os capítulos, possivelmente por necessidade de dinheiro. A parte 2 redime a anterior, e Pinóquio tem um final feliz, apesar de todas as desventuras por que passa.

Lembro-me de que, num determinado ano, a Vunesp trouxe como tema de redação: “O discurso aparentemente verdadeiro é mais perigoso que o discurso claramente mentiroso”. No ano seguinte, levei o filme da Disney à sala de aula para discutirmos o problema da “mentira nos discursos verbais e não-verbais” a que estávamos (estamos) sujeitos no dia a dia. Foram muitos os jovens que, vendo a animação pela primeira vez, não se sentiram confortáveis com a história – a mentira é sempre desagradável!

De qualquer forma, ainda que a animação da Disney seja a mais famosa, há várias outras versões de Pinóquio – sejam desenhos, sejam filmes mesmo. Dados estatísticos informam que, dentro do seu gênero, o romance de Carlo Collodi só perde em número de traduções no mundo inteiro para “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry.

Obviamente, o boneco ficou como símbolo definitivo das pessoas que mentem. Por isso, é impossível dissociá-lo dos nossos governantes.

O que entristece ainda mais é que velhos políticos, com velhas mentiras, ainda seduzem o eleitor no Brasil. Nossa falta de memória parece ser crônica, e o que vemos é um rodízio infinito das mesmas figuras ocupando diferentes cargos em diferentes eleições, mesmo que se tenham provas de corrupção, prevaricação ou qualquer outro delito: o que foi prefeito é eleito para deputado; o que foi vereador é reeleito para o mesmo cargo ou para prefeito; o senador é eleito para presidente; o que foi presidente volta depois de uns anos e assim vamos. As mesmas caras… de pau!

A política é, antes de tudo, a arte de saber mentir. E, diante de alguns de nossos governantes, Pinóquio parece um principiante. Inofensivo.