O ASSASSINO

É caminhoneiro, viaja por todo o país, às vezes mais de mês fora de casa. Quando encontra a mulher grávida, o tipo fica possesso:

– Meu? Esse aí? Nunca que é!

A moça muito religiosa, ele é o único homem. Feliz que terá enfim companhia nas longas ausências do marido.

Cada vez que ele chega:

– Não é meu esse bicho.

E xinga:

– Dessa barriga o pai não sou.

Na outra viagem:

– Esconda a pança medonha. Nada tenho com ela.

No fim da gravidez:

– O quê? Ainda prenha? Não se livrou desse trambolho?

Nasce uma menina, bonita, alegre, sempre de fita no cabelo. A amiguinha da mãe que, desde então, evita o assédio do marido. A criança adora o pai, que repele o seu agrado:

– Sai pra lá, você!

Na partida, manobrando de ré o caminhão, ele passa pelo corpinho da menina. Mais que alegue inocência, para a mulher foi de propósito:

– Assassino, sim. Da tua própria filha. Bandido. Há de queimar no inferno. Monstro!

Absolvido no inquérito, mas não por ela, que o recebe aos gritos de três vezes maldito.

Na viagem seguinte morre de mal súbito. A mulher não chora, nem veste luto:

– E um assassino merece?

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A crônica acima não é minha. É um texto do escritor paranaense Dalton Trevisan, mais conhecido por seu livro “O Vampiro de Curitiba” (1965), que lhe valeu o mesmo apelido devido ao seu temperamento recluso e avesso à badalação; badalação que parece ter contagiado pessoas de todas as profissões. Dalton, hoje com 96 anos, não dá entrevistas, não aparece na TV, não tem perfil (que se saiba) nas redes sociais. Nos meios literários, ele é conhecido única e exclusivamente por sua obra!

Estive relendo algumas de suas crônicas e, quando cheguei à que reproduzi acima, lembrei-me da rejeição por parte de alguns alunos em sala de aula. Lembro que o tema eram as “Relações Familiares”, e preparei um material com vários textos que abordavam tal questão. Lembro também de ter começado a aula com uma citação de Luís Fernando Veríssimo, segundo o qual “família é uma coisa que a gente tem na infância e leva as sequelas pro resto da vida”. A moçada riu, achou engraçado etc.

Depois, eles se emocionaram com uma crônica de Rubem Braga – “A Partilha” – em que dois irmãos se encontram e começam a fazer a divisão dos bens deixados pelos pais. Do encontro, vêm à tona ressentimentos, mágoas, cicatrizes e feridas mal curadas por parte do irmão que fala no texto. Impossível a gente não se emocionar. Quem nunca feriu e nunca foi ferido por seus familiares?

Bem, finalmente cheguei ao texto de Dalton Trevisan. Depois que li, o silêncio que se fez na classe foi perturbador. Interessante como aqueles jovens não souberam lidar com uma crônica bastante crua e objetiva – bem ao estilo do escritor paranaense. Houve quem saísse da sala abruptamente; houve um burburinho entre alguns alunos que, pude perceber, estavam indignados com o professor que ousara levar um texto daquela espécie. Uma aluna, sentada bem perto do tablado – era um cursinho pré-vestibular –, comentou que a crônica era muito fria e violenta, que ela havia detestado, pois aquele “era um texto de mau gosto, professor”.

Aquilo tudo me pôs a pensar na fragilidade do jovem que se recusa a perceber que o mundo não se resume ao quarto dele, à segurança que os pais lhe dão no aconchego de seu lar. Ele tem medo de olhar pela janela e enxergar um mundo bem diferente daquele a que está acostumado. Adota o “comportamento de avestruz”: enfia a cabeça no buraco e se abstrai “das coisas feias da vida”.

Fiquei pensando em como seria a conduta daquele pessoal na faculdade: tentariam mudar os professores que lá encontrariam ou tomariam um choque de realidade no ambiente acadêmico, bem diferente do cursinho pré-vestibular? Cresceriam ou resistiriam a tudo a fim de continuarem mimados?

A arte nem sempre nos faz sonhar. Ela é, muitas vezes, o despertador de que precisamos para sairmos do devaneio, da alienação, de uma infância tardia. Existem aqueles que cultivam sua imaturidade, porque crescer dói. E não se pode esquecer a superproteção por parte dos pais!

Verdade seja dita, também houve alguns (poucos) alunos que vieram me agradecer pelos textos escolhidos e pela aula que eu acabara de dar. Mas comportamentos assim eram raros, muito raros.

A cereja do bolo, naquela semana de aula, foi a diretoria me chamar porque vários alunos haviam mandado e-mails dizendo que “o professor estava levando textos violentos para a escola”. Lembro da cara de riso de minha coordenadora. Ela precisava me comunicar o que estava acontecendo, mas nem ela concordava com os pimpolhos.

Esses moços precisam de mais literatura e menos redes sociais. Precisam ler bons livros, ver bons filmes, curtir boa música, visitar museus. Precisam ter contato com a vida aqui fora! Precisam de mais discernimento para evitarem as drogas que consomem hoje com tanta facilidade.

O que sentirão quando (e se) lerem, por exemplo, Nelson Rodrigues?

Com 18, 19, 20 anos (ou mais), não dá pra gente se alimentar(!) somente de “Harry Potter”.