Tive um professor no colégio que uma vez disse: “Camões é o maior poeta da língua portuguesa”.  Nós, então com 15 anos, não tínhamos maturidade para discordar ou concordar com tal afirmação. Restava-nos, obviamente, estudar a “Introdução ao Classicismo” para a prova e ponto final.

Cresci, fui fazer minha faculdade de Letras, e, logicamente, retomei o contato com o poeta lusitano. Luís Vaz de Camões é o maior nome do Classicismo de Portugal – século 16 – quando houve a retomada do Antropocentrismo, isto é, o homem como “medida de todas as coisas”, em oposição ao Teocentrismo (Deus como medida de tudo). Não vou me aprofundar nisso.

Os livros dão conta de que “Camões não foi rei e, portanto, não houve registro minucioso e sistemático de sua vida, nem por estudiosos contemporâneos, nem por parentes seus”. Afirma-se que ele teria nascido por volta de 1525, provavelmente na cidade de Lisboa. Sua obra, no entanto, revela uma formação cultural bastante notável, daí a suposição de que tenha estudado em Coimbra e tenha tomado contato com textos de escritores clássicos e modernos ou renascentistas.

Bem, apesar de todas as incertezas sobre sua vida, o fato é que Camões deixou uma obra fundamental para quem quer estudar a literatura da nossa língua. Comumente, sua poesia é dividida em épica (“Os Lusíadas”) e lírica (categoria na qual se incluem os famosos sonetos – duas estrofes de quatro versos e duas de três versos, totalizando 14). É com essa forma fixa que o poeta vai explorar temas como o desejo, o amor platônico, o desconcerto do mundo, a brevidade da vida, o racionalismo etc. Seus sonetos são muitos e são maravilhosos!

Independentemente de religião, fé ou crença, uma das mais bonitas histórias da Bíblia (e complicadas também!) é a história de amor entre Jacó e Raquel, no Antigo Testamento. A moça era filha de Labão e Jacó se apaixona por ela. Pede a mão da moça em casamento, mas Labão impõe uma condição para ceder a mão de sua filha ao moço: que Jacó trabalhe para o futuro sogro durante sete anos, ao fim dos quais poderá se casar com ela. O jovem, tomado pelo amor, aceita. Jacó vai trabalhando, trabalhando, e Labão vai enriquecendo. Ao fim dos sete anos, quando os enamorados têm a certeza de que poderão ficar juntos, o pai da moça vem com uma outra condição: Raquel não pode se casar antes da irmã mais velha, Lia, que está solteira. Jacó, então, casa-se com Lia, e começa a servir mais sete anos a Labão, a fim de ficar com sua amada.

Bigamia? Sim. Estamos falando de outros tempos. Jacó fica com as duas, mas ironicamente é Lia quem vai lhe dando filhos, ao contrário de Raquel. Mais tarde, finalmente, Raquel consegue engravidar, e o primeiro filho receberá o nome de José.

José será o filho favorito de Jacó, despertando a inveja e o ódio dos irmãos, filhos de Lia. Numa das passagens mais tristes e trágicas da Bíblia, José é vendido ao Egito, pelos meio irmãos, como escravo, sem que Jacó saiba da verdade. Os filhos mentem, e Jacó passa a viver uma dor intensa na ausência do filho querido.

(Noutra passagem bíblica, encontraremos José sofrendo como escravo. Ao interpretar os sonhos do faraó e ao conquistar a confiança deste, o rapaz é alçado à condição de governador do Egito. Uma história muito bonita também…)

Mas fiquemos no soneto de Camões cujos versos descrevem tão bem o amor de Jacó por Raquel. Alguns estudiosos chegam a afirmar que o poema talvez seja autobiográfico: o escritor português também teria servido durante sete anos (de 1540 a 1547) a uma família na esperança de se casar com uma jovem. Assim, ele teria, de maneira sutil e inteligente, narrado uma experiência pessoal condenável pela censura moral da época, mas incensurável quando vertida para a linguagem bíblica. Outros tempos, outros tempos!

Depois de se ver enganado pelo sogro, Jacó volta a perseguir seu objetivo – ficar com Raquel. O jovem não mede esforços, o amor é resistente. Jacó se propõe a ultrapassar todas as barreiras a fim de merecer a pessoa amada.

Note-se, também, que o poema termina antes dos casamentos do pastor com as duas irmãs. Dessa forma, Camões explora o amor platônico, isto é, o amor puro, idealizado, sem o contato carnal – “contentando-se com vê-la”.

No fim, a intervenção do protagonista: o moço trabalharia quanto tempo mais fosse necessário, pois o amor é incansável e infinito – a vida é que não basta para tanto!

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!