“Já que é preciso aceitar a vida, que seja, então, corajosamente” – Lygia Fagundes Telles

 

A primeira vez em que li um texto de Lygia Fagundes Telles foi em 1979, eu me lembro bem, eu tinha 15 anos. Era a aula do professor Fernando, o livro sobre a carteira e todos os alunos e alunas com os olhos pregados nas páginas enquanto o professor lia o conto “Venha ver o pôr do sol”.

Não tenho ideia, hoje, do que aquela história causou no restante da classe – se tédio, prazer, espanto ou simplesmente indiferença (Ah! Como é fácil despertar a indiferença nos jovens!). Em mim, contudo, causou paixão e encantamento, um encantamento misturado a um fascínio muito grande por aquela história de dois ex-namorados: ele, ainda apaixonado e inconformado com a separação; ela, fútil, de caso com um outro homem cuja riqueza humilhava o rapaz. E eu, jovenzinho, ingênuo e bobo, diante daquela trama que me abria as portas para entender o que eram o ciúme, a vaidade, o mistério, o amor não correspondido (que se transformava em ódio), a futilidade, a vingança. Eu experimentava, pela primeira vez, o poder da literatura. Sinto a força daquele conto até hoje.

Ainda na minha adolescência, lembro da primeira adaptação de “Ciranda de Pedra” (romance que Lygia publicou em1954), para a TV: uma delicada novela das 18h de que minha mãe e minha avó tanto gostavam. Até hoje, ouvir “Céu cor-de-rosa” (de V. Herbert, A. Dubin e H. Barbosa), tema de abertura da novela, interpretado pelo Quarteto em Cy, me remete àquele ano de 1981 e me enche de saudade de tanta coisa!

Lygia Fagundes Telles foi fazendo parte da minha vida de várias formas. Lembro uma entrevista que ela concedeu a um programa sobre literatura da TV Cultura na qual ela relatou um episódio de sua juventude: quando estava na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, ela e outros estudantes convidaram a escritora carioca Cecília Meireles para vir a São Paulo dar uma palestra aos estudantes. Era o ano de 1945 e Cecília, muito lisonjeada e gentil como sempre, aceitou o convite e disse que viria. O problema, segundo Lygia, era que ninguém prestou atenção para o fato de que os estudantes não tinham dinheiro para pagar a passagem de Cecília e muito menos para hospedá-la em um hotel decente. A autora de “Romanceiro da Inconfidência” veio mesmo assim e, segundo o relato de Lygia, tudo correu bem.

Um outro caso que ficou gravado na minha memória envolveu a autora e Monteiro Lobato. Lygia era uma caloura na São Francisco quando, em 1941, o criador do “Sítio do Picapau Amarelo” foi preso por Getúlio Vargas. Na cadeia, recebeu a visita da estudante e, muito comovido com a solidariedade daquela moça bonita, disse: “A senhorita não é muito jovem para estar num lugar assim, mocinha?”. No ano seguinte, foi a vez de o escritor retribuir a gentileza: de surpresa, apareceu na festa de aniversário de Lygia, fazendo a alegria da aniversariante.

Seus contos são marcantes, fortes, intensos. Como não citar “Natal na barca”, “Pomba enamorada ou uma história de amor”, “Seminário dos Ratos” (uma porretada!), “A confissão de Leontina” (estupendo!), “As cerejas”, “Antes do baile verde”, “O menino” e tantos outros?

Na faculdade, tive pouco contato com os textos dela. Mas foi naquela época que a escritora deixou em todos nós uma marca indelével: para nossa surpresa, a diretora da Faculdade de Letras do Mackenzie, a professora de português Regina Damião, convidou Lygia para ser a nossa patronesse – e a escritora aceitou!

Difícil descrever aqui o que foi aquela noite de março de 1991. Difícil descrever o que sentimos com aquela mulher tão elegante e sofisticada, sentada à esquerda do palco, atenciosa com os formandos, gentil e paciente com todos e, principalmente, sábia em suas palavras para nós, que, dali em diante, começávamos uma jornada profissional. Não posso e não saberia descrever sua roupa, seu penteado, a cor de seus sapatos, a cor de seu esmalte ou de sua maquiagem, depois de tantos anos. O que ficou, isso sim!, foram sua presença marcante e o modo como se dirigiu a nós, jovens ainda tão inexperientes para a vida e para o mundo.

Lembro do meu nervosismo na hora em que fui fazer o discurso e de pensar: “Estou diante da autora de ‘Venha ver o pôr do sol’, meu Deus! Não acredito!”. Hoje, claro, me arrependo de não ter conversado com Lygia, de não ter pelo menos levado um livro para que ela o autografasse. Os italianos dizem que “perde tudo quem perde a boa oportunidade”.

O silêncio do auditório quando aquela mulher tão charmosa começou seu discurso, exaltando a língua portuguesa e o papel fundamental que os professores tinham (têm) para tirar este país de uma condição tão triste de ignorância e analfabetismo. Ouvíamos tudo com um certo encantamento, como se estivéssemos hipnotizados por suas palavras e por sua figura. Sim, aquela noite ficará para sempre na minha memória.

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Minha intenção era escrever este simples texto lá para o fim do mês, perto do aniversário dela, como uma simples homenagem. Não houve tempo.

Lygia nasceu em 1923 e completaria 99 anos no próximo dia 19 de abril. Escrevo na segunda-feira, 04, um dia depois de sua morte e 15 dias antes de seu aniversário. Dona de um estilo forte sem ser bruto, marcante sem ser apelativo, a ariana (ela gostava de ressaltar seu signo nas entrevistas que dava) era considerada “A dama da literatura brasileira”. Um título mais do que justo para quem escreveu e viveu com tanta elegância e com tanto comprometimento.

Por tudo o que se lê sobre ela, tem-se a impressão de ter sido uma mulher forte, mas que jamais perdeu sua doçura. Gostava de ressaltar que frequentemente precisava dos momentos de solidão para escrever e para viver consigo mesma. Recebi a seguinte declaração, via Whatsapp, atribuída a ela: “Se é difícil carregar a solidão, mais difícil ainda é carregar uma companhia”.

Em 1982, com 59 anos, foi eleita para a cadeira 28 da Academia Paulista de Letras e, em 1985, foi eleita, em 24 de outubro, para ocupar a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras, tomando posse em 12 de maio de 1987.

Sobreviveu à morte do único filho, em 2006. Disse em várias entrevistas que quase morreu junto. Refugiou-se no trabalho e escreveu um livro no período de um luto intenso e doloroso. Em 2016, aos 92 anos, Lygia foi a primeira mulher brasileira a ter sido indicada ao prêmio Nobel de Literatura.

A atriz americana Bette Davis costumava dizer: “Envelhecer não é para maricas”. Lygia Fagundes Telles foi prova disso!

https://www.youtube.com/watch?v=Mct6xJC9KS0