“Lisboa, século XIX. Basílio (Marcos Paulo) e Luísa (Giulia Gam) estão apaixonados e querem se casar. Mas o destino atrapalha os planos. Basílio é obrigado a viajar para o Brasil, de onde escreve longas cartas à sua amada. Mas o tempo passa e as cartas ficam cada vez mais raras. Até que Basílio anuncia o fim do relacionamento. Anos depois, Luísa se casa com Jorge (Tony Ramos). Mas Basílio volta de viagem e a antiga paixão retorna com força total. Os dois se tornam amantes. Dividida, Luísa também sofre com as chantagens da empregada de seu marido, Juliana (Marília Pêra), que descobre o romance secreto. Uma história de paixão e traição, baseada na obra de Eça de Queiroz”.

Essa é a sinopse que se lê no estojo triplo de DVD, lançado pela Globo Marcas em 2007. A série é de 1988, foi adaptada por Gilberto Braga e Leonor Bassères e dirigida por Daniel Filho.

Dito isso, falemos um pouco sobre o livro do respeitado autor português. Eça de Queiroz (1845 – 1900) é um grande nome do Realismo de seu país, escola que se erguia graças ao desgaste do Romantismo com suas idealizações e aventuras amorosas que pouco (ou nada) tinham a ver com o que acontecia na vida das pessoas daquele século XIX. Bailes, sonhos, amores eternos, aspirações à felicidade conjugal e personagens idealizados começavam a perder terreno para uma visão mais objetiva do mundo – seus problemas e suas imperfeições.

Em “O Primo Basílio” (1878), Eça critica o atraso lusitano. Primeiro, o modo de encarar a vida da protagonista Luísa, mulher burguesa, um tanto medíocre, que se casa com Jorge (burguês também) e vive um relacionamento monótono e frio. Apegada a romances de folhetins, a moça se torna uma alienada, incapaz, como dizem alguns críticos, de discernir entre amor e desejo, paixão e vulgaridade. Ela, portanto, é presa fácil do bonito primo que fora seu namorado no passado.

Basílio, por sua vez, é um anti-herói: namorador, avesso a compromissos, bonito e sedutor, conseguirá encantar a prima a ponto de ter com ela um caso, enquanto o marido dela (Jorge) se ausenta a trabalho. O adultério vai deixando provas nas cartas trocadas entre os dois amantes, e aí entra em cena a grande personagem do romance – Juliana.

A criada é uma mulher amarga. Inconformada com sua condição de serviçal, nutre um ódio terrível contra a patroa e sua vida de madame. Serve à outra, mas o faz com raiva, com desgosto, com certo desdém e respeito apenas aparente. Recalcada sexual e socialmente, já que é solitária e pobre, vai alimentando o desprezo pela patroa, que de nada desconfia.

Aqui, faço uma comparação, talvez exagerada, mas que considero cabível: Juliana me lembra Iago, da peça “Otelo”, de Shakespeare. Rancorosos, ambos encarnam tudo o que há de mais terrível no temperamento humano – incluindo-se aí um sentimento medonho como a inveja, capaz de levar uma pessoa a atos terríveis.

Acontece que Juliana consegue se apoderar das cartas e, com elas, chantageia a patroa, obrigando-a até mesmo a trabalhos braçais dentro da própria casa. Jorge, de volta, começa a estranhar o comportamento da esposa e tudo caminha para o sofrimento de Luísa – punição do autor à personagem pelo adultério e por seu romantismo alienante?

Eça foi um grande crítico do povo português, apontando para o atraso social e para a exagerada religiosidade do seu país. É quase inevitável a comparação que se faz entre ele e Machado de Assis – dois escritores realistas do século XIX,  gigantes na literatura de língua portuguesa e observadores severos do comportamento humano.

Machado, porém, teceu severas críticas a “O Primo Basílio”. Sobre isso, há diversos estudos e artigos que documentam a visão que o autor carioca tinha sobre o citado romance. Entre elas, Machado é rápido em dizer que Juliana é a personagem mais interessante do livro, uma vez que demonstra complexidade psicológica, elemento tão importante nos romances machadianos. Segundo ele, o romance não se sustentaria sem a citada personagem e sem a posse das cartas incriminadoras que chegam às mãos da empregada. Tudo seria muito banal.

Juliana, de fato, é o que de mais interessante se vê na história. Suas “duas caras” – a empregada submissa e a mulher solitária que odeia a vida que leva – dão o tempero ao romance. Sua amargura, sua crueldade e seu desejo de vingança (de tudo e de todos) enriquecem as cenas de que faz parte.

Eu trabalhava no jornal O Estado de S. Paulo na época em que a minissérie foi ao ar pela TV Globo. Uma entrevista publicada com Marília Pêra (1943 – 2015) me marcou bastante. Na conversa com o repórter (cujo nome não vou lembrar agora), ela falava do esforço sobre-humano que estava fazendo para interpretar Juliana. Contava que, depois de algumas cenas, trancava-se no seu camarim e chorava muito, pois precisava tirar de dentro de si os sentimentos mais terríveis que davam forma à empregada. Não lhe estava sendo fácil interpretar uma pessoa com tanto rancor e com tanto ódio.

Todos estão muito bem na minissérie, mas Marília rouba a cena. Isso não somente porque, como queria Machado de Assis, Juliana é psicologicamente a personagem mais rica da história, mas também porque era uma grande atriz desempenhando um grande papel. Qualquer pessoa menos preparada ou com menos talento não teria conseguido dar conta do que se exigia.

Alguns críticos afirmam que “a habilidade do escritor português desabrocha na criação dos personagens figurantes ou coadjuvantes, enquanto os protagonistas são quase sempre apagados”. Juliana talvez seja a prova disso.

Tomara que o leitor, para quem a obra seja inédita, anime-se a conhecer esse livro do grande autor português!